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Levantamentos sobre emprego podem estar menos precisos, dizem especialistas

O IBGE diz que o aproveitamento da Pnad Contínua caiu de 89% para 57% por causa das restrições impostas pela pandemia. No Caged, o que mudou foi a metodologia. Pesquisas sobre nível de emprego podem ter deixado de apresentar retrato preciso do mercado de trabalho, dizem especialistas

Segundo especialistas, pesquisas importantes sobre o nível de emprego no país podem não estar apresentando um retrato preciso do mercado de trabalho.

A costura paga as contas, mas, a carteira assinada, a pandemia levou. “Mudou drasticamente, 100%, porque, enquanto você trabalha, que você tem sua carteira assinada, você tem uma garantia”, diz Maria Eneida Santos Chiaroni, contadora desempregada.

É comum um desempregado sentir que vai sendo esquecido. Para que isso não aconteça, existe a estatística. O Brasil conta com duas importantes no mercado de trabalho: a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – que desde 2012 leva os pesquisadores do IBGE, a cada três meses, para a casa das famílias brasileiras e acompanha a evolução da força de trabalho -; e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged – um dado oficial divulgado pelo Ministério da Economia que mostra o nível do emprego formal a cada mês.

No auge da crise, as pesquisas podem estar menos precisas, alertam os economistas. “A mudança na Pnad foi por causa da Covid. A pesquisa até então era presencial e passou a ser feita por telefone. Como o IBGE teve dificuldade de conseguir acesso aos telefones dos pesquisados, montou-se uma base fixa de entrevistados que foi acompanhada ao longo do tempo”, explica o professor da FGV Renan Pieri.

Restritos ao telefone, os pesquisadores vão menos longe como sintoma da pandemia. A coordenadora do IBGE diz que o aproveitamento da pesquisa caiu de 89% para 57%.

“Porque o Brasil é muito diferente. Em algumas unidades estaduais a gente tem mais dificuldade na área rural. Em outras unidades estaduais a gente está com mais dificuldade mais na área urbana, nos grandes condomínios da classe média alta. Enquanto o Departamento de Metodologia garantir que a gente está conseguindo dar dados confiáveis, de qualidade, a gente vai continuar divulgando”, explica a coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE Maria Lucia Vieira.

No Caged, o que mudou foi a metodologia. O índice agora inclui trabalhadores temporários na base de dados. Então, o mercado coloca em cheque anúncios de recordes históricos na criação de vagas. “Não faz nenhum sentido a gente comparar os dados de 2020 com os dados pré-2020 na metodologia antiga, porque naturalmente os dados são diferentes”, diz Renan Pieri.

O secretário do Trabalho Bruno Dalcolmo diz que a comparação pode ser feita: “Os trabalhadores temporários, antes a divulgação, o registro deles não era compulsório, e agora passou a ser compulsório. Mas isso tem pouca expressividade na base como um todo. Menos de 4% de todo o conjunto de contratados e dispensados no país”.

A mudança no registro dos dados é outro ponto. Os economistas acreditam que existe um atraso na comunicação das demissões. Suspeitam de falência de empresas durante a pandemia e demora na inclusão de dados no sistema.

“Aparentemente, as contratações estão sendo reportadas adequadamente, mas as demissões não. E aí, o que acontece? Você tem um saldo que é artificial. Você tem muito mais gente sendo adequadamente registrada como contratada, mas você está registrando as demissões de uma forma inferior ao que de fato está acontecendo”, diz Sérgio Vale, economista da MB Associados.

O governo diz que pesquisou empresas que encerraram as atividades, mas não encontrou subnotificações e defende o novo método de registro de dados.

“A plataforma do eSocial é muito mais confiável, tem uma confiabilidade muito melhor do que o Caged anterior. São dados que são computados no dia a dia dentro das empresas de maneira eletrônica e digital e que permitem uma base mais confiável do que era antes”, diz Bruno Dalcolmo.

O impacto da pandemia nos dados de emprego foi tema de um estudo do Instituto de Pesquisa e Ensino Avançado, o Ipea. O gráfico mostra a evolução do emprego formal medida pela Pnad Contínua, do IBGE, e pelo Caged, do Ministério da Economia, de 2018 para cá. Os dois índices caminham juntos até o quarto trimestre de 2019, mas, a partir de 2020, os resultados se distanciam. No fim de 2020, o Caged mostrava um crescimento no emprego com carteira assinada e a Pnad Contínua, uma forte queda.

Outro estudo da MB Associados compara a trajetória do Caged com a atividade econômica. Os índices que sempre caminharam juntos também se descolam a partir do fim de 2020.

“Desde o ano passado, os dados de mercado de trabalho formal, do Caged, começaram a trazer números muito fortes, comparados com o passado e especialmente considerando que a gente estava no meio de uma pandemia”, afirma Sérgio Vale.

A falta de um retrato nítido do mercado de trabalho não é uma questão meramente estatística. Sem um mapa preciso que mostre onde estão os problemas sociais, os impactos econômicos, não dá para traçar estratégias para sair da crise e ajudar quem mais precisa, dizem os economistas. Fica mais difícil saber para onde ir.

“Que política pública vai ser implementada para a região Nordeste, para a região Sul, para o setor A, para o setor B, se a gente não tem ideia dos números em si que estão relacionados a essas cidades, a essas regiões, a esses setores? Então, precisa ter um esforço muito grande do governo e manter um foco nessas pesquisas, manter um dinheiro para elas, porque não é um dinheiro gasto em desperdício, é um dinheiro absolutamente necessário para a gente ter clareza do que precisa ser feito na economia brasileira”, afirma Sérgio Vale.

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